Um projeto show de bola, onde jornalistas fotografam a aniversariante de diversos ângulos e publicam, um por dia, as imagens. O resultado não poderia ser mais bonito!
Embora muitas sejam as folhas,
a raiz é só uma;
Ao longo dos enganadores
dias da mocidade,
Oscilaram ao sol minhas folhas,
minhas flores;
Agora posso murchar
no coração da verdade.
William Butler Yeats
Down by the Sally Gardens - William Butler Yeats
Hoje descobri um poeta irlandês: William Butler Yeats. Uma deliciosa descoberta. Encantei-me por um poema, em especial: “Down by the Sally Gardens”. Nele, temos uma triste história de amor que não se realizou e uma vida que passou despercebida: simplesmente passou. Recheado de metáforas, o poeta reflete sobre o quanto a vida é efêmera, passageira, e o quanto essa passagem pode ser dolorosa. O eu-lírico dialoga com seu passado, vivendo um constante ir e vir. Ao voltar, delicia-se revendo imagens. O presente, em contrapartida, é doloroso, triste e melancólico; “and now am full of tears”.
Ao terminar o parágrafo acima, uma canção de outro grande poeta me veio à cabeça: “alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração (…) mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba, não.” No “Samba da bênção” Vinicius brinca com o paradoxo entre tristeza e felicidade, evocando toda sua tristeza para fazer seu bom e eterno samba. E quanta coisa boa surgiu da tristeza, não? Vinicius de Moraes e W.B Yeats (e tantos outros) que o digam. E quanto a mim, quero mais é ficar triste!
—
Down by the salley gardens my love and I did meet;
She passed the salley gardens with little snow-white feet.
She bid me take love easy, as the leaves grow on the tree;
But I, being young and foolish, with her would not agree.
In a field by the river my love and I did stand,
And on my leaning shoulder she laid her snow-white hand.
She bid me take life easy, as the grass grows on the weirs;
But I was young and foolish, and now am full of tears.
Sobre Matsuo Basho
Estudando Paulo Leminski para a realização de um projeto, deparo-me com Matsuo Basho. Grande mestre, que, encontrou na literatura, a melhor maneira de compartilhar suas visões, emoções e conhecimento. Sempre em peregrinação, Basho conquistou discípulos. Seu grande objetivo era simples: ver luares. Nessas peregrinações, escreveu haikus, poemas que originaram os haikais, juntamente com seus discípulos.
Poderia escrever muito mais sobre Basho, porém, me detenho a colocar aqui alguns de seus poemas que, acredito, falam por si só.
quantas memórias
me trazem à mente
cerejeiras em flor
ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante
fogos de artifício terminaram
os espectadores se foram
ah! O vasto espaço
Dias e noites vagueiam pela eternidade, assim são os anos que vêm e vão como viajantes que lançam os barcos através dos mares ou cavalgam pela terra. Muitos foram os ancestrais que sucumbiram pela estrada. Também tenho sido tentado há muito pela nuvemovente ventania, tomado por um grande desejo de sempre partir.
BASHO
Certa vez um poeta afirmou que a História é imprevisível. A dor também. Há um diálogo secreto entre ambas. A dor tem uma história confusa, nem sempre é cíclica, às vezes a primeira pontada surge um mês depois da última crise, ou pode surgir daqui a pouco, como um castigo ou maldição. Depois da crise, a paz volta a reinar. Na cabeça: a paz precária de uma trégua…
Milton Hatoum, Aura. Revista Piauí, #49 - out. 2010 [texto do manuscrito ‘A Dor do Viajante’, sem data de publicação prevista]
Da série: “Meu cão é pura poesia”
Já tenho um filho e um cachorro
Sou mais feliz do que os felizes
Sob as marquises me protejo do temporal
bastou um olhar
e pode ver
a mola mestra
da aprendiz
que sou
a escolha que fiz
no avesso e apesar
da sorte adversa
de não pesar
de ser feliz
poeta é quem vê
o que não é de dizer
e ainda assim
diz
A música p’ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!
O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d’um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;
Sinto vibrar em mim todas as comoções
D’um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões
Conseguem a minh’alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!
Baudelaire
![abrapira:
Certa vez um poeta afirmou que a História é imprevisível. A dor também. Há um diálogo secreto entre ambas. A dor tem uma história confusa, nem sempre é cíclica, às vezes a primeira pontada surge um mês depois da última crise, ou pode surgir daqui a pouco, como um castigo ou maldição. Depois da crise, a paz volta a reinar. Na cabeça: a paz precária de uma trégua…
Milton Hatoum, Aura. Revista Piauí, #49 - out. 2010 [texto do manuscrito ‘A Dor do Viajante’, sem data de publicação prevista]](http://24.media.tumblr.com/tumblr_lzz438AZVC1qb93f2o1_500.jpg)

